Durante muito tempo, os riscos cibernéticos foram tratados como um problema exclusivamente técnico, restrito às áreas de TI e Segurança da Informação. No entanto, esse cenário mudou de forma significativa. Hoje, incidentes cibernéticos impactam diretamente resultados financeiros, a continuidade do negócio, a reputação da marca e até a sobrevivência de organizações inteiras.

Nesse contexto, o grande desafio não é apenas identificar vulnerabilidades técnicas, mas traduzi-las em uma linguagem que faça sentido para executivos, conselhos e áreas de negócio. Ou seja, transformar ameaças técnicas em riscos corporativos claros, mensuráveis e acionáveis.

Por que riscos cibernéticos devem ser tratados como riscos corporativos?

Ataques cibernéticos deixaram de ser eventos isolados ou improváveis. Vazamentos de dados, ransomware, indisponibilidade de sistemas críticos e falhas em fornecedores digitais são ocorrências cada vez mais comuns e com consequências relevantes. Quando um incidente acontece, os impactos vão muito além da infraestrutura de TI:

  • Impacto financeiro direto: custos de resposta a incidentes, multas regulatórias, pagamento de resgates, perda de receita por paralisação.

  • Impacto operacional: interrupção de serviços, atrasos em entregas, perda de produtividade.

  • Impacto legal e regulatório: sanções relacionadas à LGPD, GDPR e outras normas setoriais.

  • Impacto reputacional: perda de confiança de clientes, parceiros e investidores.

  • Impacto estratégico: adiamento de projetos, revisão de estratégias digitais e redução da competitividade.

Por isso, frameworks de governança e gestão de riscos, como ISO 31000, ISO/IEC 27001, NIST CSF e COBIT, reforçam que riscos cibernéticos devem fazer parte do mapa de riscos corporativos, com visibilidade em nível executivo.

O desafio da comunicação entre áreas técnicas e executivas

Um dos principais obstáculos na gestão de riscos cibernéticos é a forma como eles são comunicados. Relatórios excessivamente técnicos, cheios de siglas, vulnerabilidades e métricas operacionais, dificilmente geram engajamento fora da área de TI. Para a alta gestão, perguntas como estas são mais relevantes:

  • Quanto esse risco pode custar para a empresa?

  • Qual a probabilidade de isso acontecer?

  • O que acontece se não fizermos nada?

  • Vale a pena investir para reduzir esse risco agora?

Traduzir riscos técnicos para essa linguagem é um passo essencial para decisões mais conscientes e alinhadas ao negócio.

Como traduzir ameaças técnicas em impacto financeiro e estratégico

1. Conecte a ameaça ao ativo de negócio

Toda ameaça técnica afeta, direta ou indiretamente, um ativo de negócio. Em vez de focar apenas na vulnerabilidade, identifique:

  • Qual processo de negócio depende desse sistema?

  • Esse ativo gera receita? Suporta operações críticas? Armazena dados sensíveis?

Exemplo:

Vulnerabilidade crítica em um servidor de e-commerce não é apenas um problema técnico. Ela pode resultar em indisponibilidade da plataforma, perda de vendas e impacto direto no faturamento.

2. Avalie impacto em termos compreensíveis

Sempre que possível, traduza impactos para valores financeiros ou indicadores estratégicos, como:

  • Perda estimada de receita por hora ou dia de indisponibilidade.

  • Multas potenciais por descumprimento regulatório.

  • Custos médios de resposta a incidentes (consultorias, horas extras, comunicação, jurídico).

  • Impacto em indicadores estratégicos (NPS, churn, market share).

Mesmo quando não for possível obter valores exatos, estimativas bem fundamentadas já ajudam muito na tomada de decisão.

3. Utilize cenários de risco

Cenários tornam o risco mais concreto. Um bom cenário de risco cibernético responde a três perguntas:

  • O que pode acontecer? (ex: ataque de ransomware)

  • Por que isso pode acontecer? (ex: ausência de backups testados)

  • Quais seriam as consequências? (ex: paralisação por dias, perda financeira e dano reputacional)

Essa abordagem é amplamente utilizada em práticas de GRC e facilita o entendimento por públicos não técnicos.

4. Apoie-se em indicadores (KPIs e KRIs)

Indicadores são aliados importantes na tradução do risco. Alguns exemplos:

  • KRIs: percentual de ativos críticos sem patch, número de incidentes relevantes, falhas em backups, acessos privilegiados sem revisão.

  • KPIs: tempo médio de resposta a incidentes, taxa de sistemas cobertos por monitoramento, percentual de colaboradores treinados.

Quando apresentados de forma visual e associados a limites de tolerância, esses indicadores ajudam a demonstrar quando o risco está dentro ou fora do apetite definido pela organização.

5. Relacione o risco às decisões estratégicas

Por fim, deixe claro como o risco cibernético influencia decisões estratégicas, como:

  • Expansão digital ou adoção de novas tecnologias.

  • Parcerias com fornecedores e terceiros.

  • Investimentos em inovação, nuvem ou IA.

Risco cibernético não é apenas um tema de proteção, mas de viabilização segura do negócio.

O papel da Governança, Riscos e Compliance (GRC)

Profissionais de GRC exercem um papel fundamental nessa tradução entre o mundo técnico e o estratégico. São eles que ajudam a:

  • Integrar riscos cibernéticos ao ERM (Enterprise Risk Management).

  • Garantir alinhamento com o apetite a risco definido pela alta gestão.

  • Estruturar relatórios claros e orientados à decisão.

  • Conectar segurança da informação, privacidade, compliance e objetivos de negócio.

Mais do que controlar, o foco passa a ser orientar decisões conscientes, equilibrando risco, custo e oportunidade.

Conclusão

Tratar riscos cibernéticos como riscos corporativos é uma necessidade, não uma opção. Organizações que conseguem traduzir ameaças técnicas em impacto financeiro e estratégico estão mais preparadas para priorizar investimentos, responder a incidentes e sustentar sua estratégia digital.

Para profissionais de TI, Segurança da Informação, GRC e Compliance, desenvolver essa capacidade de comunicação é um diferencial cada vez mais valorizado. Afinal, proteger a tecnologia é importante mas proteger o negócio é essencial.